
Um fazendeiro australiano encontrou em suas terras, no sudoeste de Queensland, uma bola retorcida de metal que ele acredita ser lixo espacial. O homem está certo que o destroço pertence a um foguete que é utilizado para lançar satélites comerciais. Na teoria, a peça teria de ser destruída totalmente ao reentrar na atmosfera da Terra.

Uma esfera, de cerca de um metro de diâmetro, caiu em uma fazenda, em Montividiu (GO), neste fim de semana. O objeto não era pesado e ficou amassado com a queda. Moradores da região não perceberam o momento em que a esfera apareceu. O Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe) acredita na hipótese de o material ser lixo espacial.
O produtor rural Sebastião Marques da Costa disse que a peça desconhecida estava quente quando foi encontrada. A esfera caiu a cerca de 150 metros de uma casa e atraiu muitos curiosos. Alguns ficaram com medo, outros se arriscaram a mexer e a dar palpites sobre a origem do objeto desconhecido.
Técnicos da Vigilância Sanitária de Goiás estiveram na fazenda nesta segunda-feira (24). Eles não recolheram o objeto, mas recomendaram que os moradores não toquem na esfera. A Comissão Nacional de Energia Nuclear (Cnen) foi avisada e deve mandar técnicos ao local e analisar se o objeto tem alguma radioatividade.
População deve manter distância de possível lixo espacial
Tudo indica que o estranho objeto que caiu em Montividiu (interior de Goiás) neste fim de semana é mesmo um pedaço de lixo espacial — possivelmente um tanque de combustível. A avaliação preliminar, feita com base na fotografia publicada pelo G1, é do engenheiro aeroespacial Petrônio Noronha de Souza, do Inpe (Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais). Ele alerta que, em casos como esses, deve-se isolar a área e manter distância do destroço orbital, porque ele pode conter resquícios de substâncias tóxicas.
“Eu não recomendaria que ninguém se aproximasse do objeto. O ideal é chamar os bombeiros ou outros especialistas com equipamento que lhes permita lidar com material tóxico”, disse Souza ao G1 por telefone. “Após a reentrada, pode até ser que o material esteja totalmente inerte, mas é melhor não arriscar.”
Ao contrário do que circula no imaginário popular, é relativamente raro que satélites ou seus fragmentos contenham material radioativo. “E, quando está presente, ele fica encapsulado em cilindros que são virtualmente indestrutíveis. Certamente não é o caso desse objeto que caiu em Goiás”, afirma o pesquisador do Inpe.
Embora as imagens do objeto deixem alguma margem para dúvida, ”ele tem todo o jeito de um tanque de combustível”, diz Souza. “Não dá para saber se é uma sobra de satélite ou foguete. Pode ser que ele tivesse outras partes, que foram consumidas durante o atrito com a atmosfera. Mas, decerto, não se trata de uma peça de avião nem de balão.”
A estrutura em gomos, que lembra vagamente uma colméia, tem a ver com a maneira como essas estruturas são produzidas, de acordo com o especialista — no processo, materiais como fibra de carbono são “tecidos” ou “trançados” até adquirir essa aparência. Na verdade, trata-se de uma manta enrijecida que é bastante resistente ao atrito.
Também não é possível saber, apenas com as fotografias, se o objeto original era totalmente esférico ou se tinha a forma de uma ampola ou cápsula. O tanque poderia conter hidrogênio e oxigênio líquidos — nesse caso, os combustíveis certamente foram consumidos por inteiro. No entanto, também é possível que ele contivesse propelentes como a hidrazina, o mesmo combustível de foguetes usado por um satélite-espião recentemente derrubado pelos militares dos EUA. A hidrazina é altamente tóxica, podendo causar danos severos aos sistemas respiratório e nervoso.
A Terra é recoberta por uma grossa camada de objetos feitos pelo homem. Milhares de satélites e também muito lixo – quase dez mil fragmentos. De vez em quando, uma dessas peças abandonadas desaba do céu. O objeto mais recente do lixo espacial a despencar na Terra é uma esfera que caiu perto do município de Montividiu, no interior de Goiás. Caiu a 150 metros de uma casa.
Os técnicos da Comissão Nacional de Energia Nuclear foram ao local e tranqüilizaram a população, que estava com medo de se tratar de um objeto radioativo. O aparelho que mede a radiação não detectou nada.
O objeto não era radioativo e foi transportado até a sede da Comissão Nacional de Energia Nuclear, perto de Goiânia. No início, muitos cuidados, por causa de uma poeira que o material soltava. Mas o especialista em satélites, José Nivaldo Hinckel, enviado de São Paulo, explicou que o objeto pode ser um componente de um tanque de combustível, por exemplo, de um artefato espacial.
“A casca metálica é de titânio e o reforço externo é de fibra de carbono. Isso é muito comum em satélites”, afirmou Hinckel. “O fato de o metal ter derretido localmente é indicação clara que isso tenha sido submetido a uma temperatura muito elevada e a temperatura provavelmente foi causada pelo atrito durante e reentrada. Essa é a indicação bem clara de que isso tem origem espacial”, acrescenta.
Em 2001, um outro objeto de origem espacial despencou em uma região isolada de Mato Grosso do Sul. Na área, hoje existe uma pousada. O lixo espacial virou atração. “Eu peguei a bola e balancei um pouco. Tinha um líquido dentro. Quando vi o equipamento do pesquisador fiquei preocupado. Vi que poderia ter sido contaminado por radiação, mas eles mediram tudo e não tinha perigo”, conta o funcionário Eduardo Jorge Correa.
O astrônomo Roberto Boczko explica que o maior perigo está lá no alto, para os astronautas que navegam em meio a um monte de lixo. Por exemplo: uma luva, perdida pelo astronauta Ed White, em 65, em uma caminhada espacial. “Uma luva andando a quarenta mil quilômetros por hora lá no espaço, se bater em uma estação espacial, fura”, ressalta. “Eu não dormiria tranqüilo. A probabilidade de ser atingido é muito grande”.
O astrônomo afirma que o lixo espacial que cai na terra geralmente está em altitudes baixas, cerca de quinhentos quilômetros. Nessa região ainda resta um pouco de atmosfera, que aos poucos vai “segurando” o satélite. Até que um dia ele cai. Muitos queimam quando se aproximam da terra. “Às vezes, um tamanho maior acaba conseguindo atravessar a atmosfera inteira. Imagine um fragmento desses extremamente aquecido caindo em um depósito de combustível pode causar uma tragédia razoavelmente grande”, destaca Boczko.
Como os oceanos ocupam 75% da Terra, a chance é de 75% de o lixo espacial cair no mar. “É acreditar na sorte mesmo. Realmente é acreditar na sorte.”















